| Dra. Ana Carla Souza Theodoro | CRM 94.816 | RQE 102.179 – Conteúdo educativo e de divulgação científica — Resolução CFM nº 2.336/2023 |

Você ouve um chiado, apito ou zumbido que mais ninguém ao redor consegue escutar? Esse som que parece vir “de dentro da cabeça” tem nome: tinnitus, mais conhecido no Brasil como zumbido no ouvido. Embora seja extremamente comum, muitas pessoas demoram anos para buscar avaliação médica adequada — o que pode atrasar significativamente a identificação da causa e o início do tratamento.
Neste artigo, explicamos o que é o zumbido, quais são suas origens mais frequentes e, principalmente, quando esse sintoma deve ser avaliado com urgência por um otorrinolaringologista.
O que é o zumbido no ouvido?
O zumbido é definido como uma percepção auditiva sem fonte sonora externa. Em termos técnicos, trata-se de uma ilusão auditiva: o sistema nervoso auditivo gera ou processa um sinal que o cérebro interpreta como som, mesmo na ausência de qualquer estímulo externo correspondente.
O termo tinnitus vem do latim tinnire, que significa “tocar” ou “zumbir”. Os sons descritos pelos pacientes variam: chiado, apito, cigarra, cachoeira, panela de pressão, batimento cardíaco ou cliques. Algumas pessoas percebem o zumbido apenas no silêncio; outras convivem com ele durante todo o dia, o que pode comprometer seriamente o sono, a concentração e o bem-estar emocional.
| Importante O zumbido não é uma doença em si, mas um sintoma — assim como a febre ou a dor de cabeça. Identificar a causa subjacente é o passo fundamental para um tratamento eficaz. |
Com que frequência o zumbido ocorre?
O zumbido é muito mais prevalente do que a maioria das pessoas imagina. Segundo levantamento publicado pela revista científica JAMA Neurology (2022), aproximadamente 14% da população mundial adulta convive com algum grau de tinnitus, o que corresponde a cerca de 740 milhões de pessoas. No Brasil, estimativas do Ministério da Saúde apontam para 28 milhões de brasileiros afetados pelo sintoma.
Apesar de ser frequente, não é banal: cerca de 20% dos portadores de zumbido relatam incômodo significativo, com prejuízo real na qualidade de vida, nas relações sociais, no trabalho e no sono.
Quais são as causas mais comuns?
O zumbido pode ter múltiplas origens, auditivas e não auditivas. Entre as causas mais frequentes:
Causas auditivas
- Perda auditiva por envelhecimento (presbiacusia) ou exposição a ruídos intensos — a causa mais comum
- Acúmulo de cerume (cera) no canal auditivo externo
- Otite média ou infecções do ouvido
- Otosclerose (calcificação dos ossículos do ouvido médio)
- Perfuração da membrana timpânica
Causas vestibulares e neurológicas
- Doença de Ménière (hidropsia endolinfática)
- Neurinoma do acústico (tumor benigno do nervo vestibulococlear)
- Neurite vestibular
Causas sistêmicas
- Hipertensão arterial e doenças cardiovasculares
- Anemia e distúrbios hematológicos
- Diabetes mellitus e disfunções da tireoide
- Uso de medicamentos ototóxicos (como aminoglicosídeos, AINEs em doses elevadas e quimioterápicos)
Causas musculoesqueléticas e articulares
- Disfunção temporomandibular (DTM)
- Tensão muscular na região cervical e craniofacial
Zumbido pulsátil: um alerta importante
| Atenção: Zumbido Pulsátil O zumbido pulsátil — aquele que “bate no ritmo do coração” — frequentemente indica uma causa vascular, como malformações arteriovenosas ou hipertensão intracraniana. Diferente do zumbido contínuo, ele requer investigação complementar com exames de imagem. Procure seu otorrinolaringologista com prioridade. |
Zumbido e saúde mental: uma relação bidirecional
A relação entre zumbido e saúde mental é documentada na literatura científica. Estudos publicados no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology demonstram forte correlação entre a severidade do zumbido e alterações de humor, como ansiedade e depressão. Muitos pacientes adquirem o zumbido por causas físicas e, ao longo do tempo, desenvolvem quadros ansiosos.
Essa interação envolve o sistema límbico — região do cérebro ligada às emoções — e o sistema nervoso autônomo, o que explica por que situações de estresse intensificam o zumbido em muitos pacientes.
Quando procurar um otorrinolaringologista?
Procure avaliação médica especializada nos seguintes casos:
- Zumbido com início súbito ou muito intenso
- Zumbido acompanhado de perda auditiva repentina — buscar atendimento em até 72 horas (emergência médica)
- Zumbido pulsátil (que “pulsa” junto com o coração)
- Zumbido associado a tontura, vertigem ou desequilíbrio
- Zumbido que interfere no sono, na concentração ou no trabalho
- Qualquer zumbido novo e persistente por mais de uma semana
Como é feito o diagnóstico?
A investigação do zumbido começa com uma consulta detalhada. O otorrinolaringologista avalia as características do zumbido (localização, intensidade, frequência, situações que o pioram ou melhoram) e o histórico de saúde do paciente. Os principais exames utilizados incluem:
- Audiometria tonal e vocal — avaliação completa da audição
- Imitanciometria — avalia a mobilidade do tímpano e dos ossículos
- Acufenometria — identifica a frequência e a intensidade sonora do zumbido
- Otoemissões acústicas
- Exames laboratoriais (hemograma, glicemia, perfil lipídico, função tireoidiana)
- Exames de imagem quando indicados (especialmente na suspeita de zumbido pulsátil)
Existe tratamento para o zumbido?
Sim. Embora não exista ainda uma “cura universal” para o tinnitus, existem diversas abordagens terapêuticas com evidências científicas, capazes de reduzir significativamente o incômodo e melhorar a qualidade de vida. O tratamento é sempre personalizado, baseado na causa identificada e no perfil de cada paciente. As principais opções incluem tratamento da causa subjacente (quando identificável), terapia sonora, uso de aparelhos auditivos em casos de perda auditiva associada, Terapia de Retreinamento do Zumbido (TRT) e abordagens cognitivo-comportamentais.
O importante é que o zumbido tem tratamento — e buscar um especialista é o primeiro e mais importante passo.
Referências Bibliográficas
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- Sanchez TG, Samelli AG, Mecca FDN, et al. Zumbido e ansiedade: uma revisão da literatura. Rev CEFAC. 2011;13(3):565-573. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcefac/a/3jY3JGnRD9LQby3WgZwk6BP/
- Pinto PCL, Sanchez TG, Tomita S. The impact of gender, age and hearing loss on tinnitus severity. Braz J Otorhinolaryngol. 2010;76(1):18-24. doi:10.1590/S1808-86942010000100004
- Jastreboff PJ. Phantom auditory perception (tinnitus): mechanisms of generation and perception. Neurosci Res. 1990;8(4):221-254. doi:10.1016/0168-0102(90)90031-9
- Ministério da Saúde do Brasil. Zumbido no ouvido. Biblioteca Virtual em Saúde. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/zumbido-no-ouvido/
- Tunkel DE, Bauer CA, Sun GH, et al. Clinical practice guideline: tinnitus. Otolaryngol Head Neck Surg. 2014;151(2 Suppl):S1-S40. doi:10.1177/0194599814545325
| Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Para avaliação, diagnóstico e tratamento individualizado, consulte um médico otorrinolaringologista. Agende sua consulta com a Dra. Ana Carla Souza Theodoro | CRM 94.816 | RQE 102.179 |