Dra. Ana Carla Souza Theodoro | CRM 94.816 | RQE 102.179 Conteúdo educativo e de divulgação científica — Resolução CFM nº 2.336/2023

Uma das perguntas mais frequentes no consultório é: “Zumbido tem cura?”. A resposta honesta é: depende da causa. Em muitos casos, quando o zumbido é consequência de uma condição tratável — como cerume impactado, otite ou pressão arterial descontrolada —, ele pode desaparecer completamente após o tratamento da causa de base.

Nos casos de zumbido crônico, especialmente aqueles associados a perda auditiva, o objetivo terapêutico se desloca da “cura” para a habituação e a melhora da qualidade de vida — metas concretas, alcançáveis e sustentadas por evidências robustas na literatura médica.

O que é habituação e por que ela importa?

A habituação é a capacidade do cérebro de aprender a ignorar estímulos que não representam ameaça ou significado relevante. Pense no ruído de um aparelho de ar-condicionado: ao entrar no ambiente, você o ouve claramente. Após alguns minutos, seu cérebro “filtra” o som e você deixa de percebê-lo conscientemente.

No zumbido crônico, o sistema nervoso passou a classificar esse som como uma “ameaça” — e por isso o amplifica via sistema límbico e sistema nervoso autônomo. O objetivo das terapias modernas é reverter essa classificação, ensinando o cérebro a tratar o zumbido como um sinal neutro, sem relevância emocional.

Terapia de Retreinamento do Zumbido (TRT)

A Terapia de Retreinamento do Zumbido (Tinnitus Retraining Therapy — TRT) é atualmente uma das abordagens com melhor evidência científica para o zumbido crônico. Desenvolvida pelo neurocientista Pawel Jastreboff com base no modelo neurofisiológico do tinnitus, a TRT combina dois pilares fundamentais:

1. Aconselhamento terapêutico (counseling)

O paciente recebe informações detalhadas sobre os mecanismos do zumbido, o que reduz o medo, a catastrofização e a ansiedade associadas ao sintoma. Compreender que o zumbido não representa uma doença grave ou progressiva, na maioria dos casos, é em si terapêutico.

2. Enriquecimento sonoro

Uso de geradores de som de baixa intensidade ou aparelhos auditivos para reduzir o contraste entre o zumbido e o silêncio — tornando o zumbido menos saliente e facilitando a habituação.

Evidência Científica Estudo publicado no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology demonstrou que a TRT associada a técnicas cognitivo-comportamentais em grupos resultou em melhora estatisticamente significativa nos escores do Tinnitus Handicap Inventory (THI) e na escala de ansiedade e depressão, com resultados comparáveis aos de centros internacionais de referência.

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) no Zumbido

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) aplicada ao zumbido tem como foco identificar e modificar os pensamentos disfuncionais e comportamentos de evitação que amplificam o incômodo. Evidências científicas indicam que o aconselhamento psicológico desempenha papel essencial na remissão do sofrimento associado ao zumbido, especialmente em pacientes com quadros ansiosos ou depressivos concomitantes.

A TCC não elimina o zumbido, mas muda profundamente a relação do paciente com ele — reduzindo o impacto emocional e melhorando a qualidade do sono, a concentração e o funcionamento social e profissional.

Terapia Sonora e Geradores de Som

A terapia sonora é um elemento central no manejo do zumbido crônico. Ela pode incluir:

O objetivo não é “cobrir” o zumbido, mas reduzir o contraste sonoro que o torna mais perceptível.

Aparelhos Auditivos no Tratamento do Zumbido

Quando o zumbido está associado a perda auditiva — o que ocorre na maioria dos casos —, a adaptação de aparelhos auditivos pode trazer alívio significativo. Ao amplificar os sons ambientais, o aparelho reduz o contraste entre o ambiente sonoro e o zumbido, facilitando naturalmente a habituação. Muitos modelos modernos já incluem geradores de som integrados, combinando amplificação e terapia sonora em um único dispositivo.

O papel dos medicamentos

Não existe medicamento capaz de eliminar o zumbido de forma definitiva e consistente. Alguns fármacos podem ser usados pontualmente para tratar condições associadas — como ansiedade, depressão ou insônia — e assim reduzir indiretamente o incômodo. O uso de medicamentos deve ser sempre avaliado e prescrito pelo médico, considerando o perfil individual do paciente.

Alerta sobre produtos sem evidência científica Nenhum suplemento ou produto comercializado na internet como “remédio para zumbido” possui evidência científica robusta. Consulte sempre um médico otorrinolaringologista antes de iniciar qualquer tratamento.

Abordagens em investigação

A pesquisa científica sobre o tinnitus avança rapidamente. Entre as abordagens em estudo, destacam-se a estimulação magnética transcraniana (EMTr), a neuromodulação bimodal (combinando estimulação sonora e tátil) e terapias baseadas em farmacologia direcionada à neuroplasticidade. Esses tratamentos ainda não têm indicação clínica consolidada para uso rotineiro, mas representam caminhos promissores.

Uma abordagem multidisciplinar

O tratamento ideal do zumbido crônico raramente é feito por um único profissional. A abordagem multidisciplinar — envolvendo otorrinolaringologista, fonoaudiólogo, psicólogo ou psiquiatra, e em alguns casos neurologista ou cardiologista — tem mostrado os melhores resultados. O mapa terapêutico é sempre individual: o que funciona para um paciente pode não ser o melhor caminho para outro.

O ponto de partida é sempre uma avaliação otorrinolaringológica completa, para identificar a causa do zumbido e definir o plano de tratamento mais adequado.

Referências Bibliográficas

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  2. Jastreboff PJ, Hazell JWP. Tinnitus Retraining Therapy: Implementing the Neurophysiological Model. Cambridge: Cambridge University Press; 2004.
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Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Para avaliação, diagnóstico e tratamento individualizado, consulte um médico otorrinolaringologista. Agende sua consulta com a Dra. Ana Carla Souza Theodoro | CRM 94.816 | RQE 102.179

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